Nada mais folhetinesco que a classe média. Tipo: " viagem a negócios", "me passa o suco por favor", "foi na liquidação", "ai que mulher nojenta", "o dólar subiu", "o dólar desceu", "o dólar está estável", "sabe da última? fulano largou...", "reunião", "acho que agente tem que ser feliz, vai ser feliz", etc, etc. Estamos todos mais ou menos no etc. Sempre a mesma armadilha.
Tenho sonhado com minha pobreza de imagens. Perdi tudo jogando na bolsa. A última imagem esboça a primeira. Mas eu continuo buscando. Teve um sonho que foi assim: havia um casal de crianças dentro de uma casa vazia. As crianças viviam nuas. A casa era grande, muitos cômodos. Os irmãos não conheciam nenhuma língua, não sabiam falar, não se comunicavam. Dai, um belo dia, chega à casa um adulto para ensinar os irmãos a falar. À medida que as crianças aprendiam as palavras a casa ia sendo preenchida de objetos. Depois das palavras vieram as primeiras frases, depois trechos inteiros de conversação. A casa ficou abarrotada de coisas, muitas até dispensáveis. Quando as crianças cresceram já sabiam construir pensamentos complexos, abstratos. Abandonaram a casa e não levaram consigo objeto algum. Restou a casa, que voltou a ser o que sempre foi.