4. Os canaviais se expandem a perder de vista. Não se sabe onde começam nem onde terminam, sequer se começam ou terminam. O espaço latifundiário é neutro. Ao invés de areia o que se apresenta aos olhos curiosos é um deserto de cana-de-açúcar. Cravado em meio ao canavial, a Usina ergue-se soberana. Contra o horizonte destacam-se três figuras: chaminé, fumaça e a montanha de bagaço-de-cana que serve de combustível aos fornos da Usina. Desta saem os caminhos de terra batida que atravessam o canavial e desembocam nas rodovias intermunicipais. Por tais caminhos a Usina monopoliza o território e a mão-de-obra que advém das cidades. A práxis espacial aqui é muito simples: trata-se apenas de nivelar o terreno, de sorte a suprimir-lhe o menor acidente, e sobre a terra plana fazer brotar o denso deserto verde. A partir da Usina, riscam-se as vias em linha reta, as quais perfuram a massa compacta de cana-de-açúcar. Como sua matemática é primária, o latifúndio resume-se a um conjunto exíguo de figuras; seu registro espacial exprime a carência de imagens duradouras já que referências visuais não resistem à voracidade da Usina. O espaço latifundiário é absoluto, ignora o seu antes e o seu depois, só assim pode alimentar a ininterrupta atividade da própria fome. O tempo também padece dessa dinâmica compressora. Pois, para adequar-se a tal espacialidade, o tempo precisa compartilhar suas configurações. Assim, as distinções tradicionais entre dia e noite perdem vigência. No processo de produção latifundiário, o tempo individual aplainou-se em turnos alternados de 12 horas: enquanto uns dormem, outros continuam o trabalho, sempre esperando sua vez de repousar, de modo que o tempo coletivo não cessa jamais seu círculo vertiginoso e insuficiente. O relógio biológico dos trabalhares é respeitado em seu limiar, isto é, na medida em que o trabalhador possa render o máximo sem desfalecer. O latifúndio não apenas elidiu do espaço sua espessura imagética, tornando-o despersonalizado, mas também encampou o tempo múltiplo do camponês, transformando-o em cronologia estéril, indistinta, repetitiva. A noite seqüestra o dia e o dia prolonga a noite; dias, semanas, meses e anos não se pautam mais por indicações temporais circunstanciadas, mas se nivelam às metas fixas e vazias da receita empresarial. Da mesma forma como essa rotina destemporaliza o espaço, ela desespacializa o tempo. Um amigo que trabalhou como motorista de treminhão me contava que alguns de seus colegas de trabalho passaram anos sem sair de casa nos momentos de folga porque já não lembravam mais as amizades e os vínculos sociais de outrora, tamanha sua aderência ao espaço-tempo massacrante da Usina. Esquecer, aliás, é um modo eficaz de adaptação. Neste caso, os trabalhadores se esquecem facilmente do que fazer com o ócio e com o fato de estarem vivos. Algumas vezes pude percorrer os caminhos dos canaviais. Neles se move até esquecer-se por onde se move; a falta de perspectiva enfastia, a sensação de ir a lugar nenhum exaure. O que se pode conhecer de um espaço-tempo re-produzido às custas da própria diluição? Pequenas cidades ainda rompem esse cenário homogêneo com suas anedotas, mas a presença do padrão latifundiário está cada dia mais entranhado na vida das pessoas, que estão cada vez mais habituadas ao esquecimento voluntário, inclusive ao esquecimento do próprio cansaço.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
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Prometo que eu vencerei esses "Cemitério dos Vivos". No momento, um só nome define: JAIMINHO.
ResponderExcluirla la la la ae ae aa e ae eeeeeee la la la la la la la la la la
que música é essa? é preciso ter força pra descobrir, Gildona.