terça-feira, 25 de agosto de 2009

cemitério dos vivos 3

3.Negrito A amarração lógica do sistema, a sua, digamos, sistematicidade, impede que o vejamos senão como simulacro daquilo que deseja significar. Qualquer enunciação sobre “o sistema” logo é engolida pela coerência intrínseca da idéia, da qual é a presa embora acredite ser a crítica. Teorizar o sistema é vão: antes, ao explicarmos o sistema, estamos sistematizando a teoria. Nesse sentido, o capitalismo não gerou o individualismo, por exemplo, mas nele se realizou, e ainda se realiza, e nele também se insinua como potência. Por outro lado, o que denominamos individualismo adquire clara expressão, isto é, contemporaneidade, em relação à sua indumentária capitalista. Por isso é legítimo fazer a pré-história das formas capitalistas, dos modos como o passado assalta o presente, e vice-versa. Não se trata de resolver quem nasceu primeiro, o tédio ou a galinha, mas de dialetizar a dialética, flagrar o colapso do sistema para fazer emergir seus resíduos, seus acontecimentos, seu outro. Imaginemos uma experiência amorosa desprovida de contato e conseqüência: compreender o mundo através do sistema é a mesma coisa que fazer sexo virtual. Minha sugestão, e talvez meu equi-voco, consiste em propor uma falência lingüística operada no seio da cidade latifundiária; não a bancarrota cultural, bem entendido, mas o esgotamento da palavra que comunica justamente por estar seca. E compreender aqui se restringe ao efeito de superfície, jamais ao complexo de profundidade sociológica que tanto afeta os universitários. Minha hermenêutica libertou-se do método, mas aferra-se à verdade. Prefiro me ater aos padrões de sentimento, às imagens do cotidiano, e, o que dá no mesmo, confeccionar o barro da memória. Dito isso, o problema aqui não é que a palavra tenha assumido de vez sua “função” dentro do sistema, mas que as pessoas possam nisto acreditar, e viver conforme. Teríamos, assim, uma cultura da ineficácia cultural, onde passaríamos os dias anestesiados, quando anestesiar é o único jeito de passar os dias? O fardo maior de tal mundo é que ele funciona à revelia do sistema que julgamos determiná-lo. Porém, é próprio da palavra nutrir-se de paradoxos. Um belo dia a semente seca soterrada durante anos é alcançada pela chuva e renasce exuberante. Os pomares hão de renascer, porque a terra merece nossa feliz agricultura, e é preciso que voltemos a merecer a terra também.

cemitério dos vivos 2

2. Deixemos de lado a questão: se certas palavras ainda são válidas. Discutir a caducidade dos significantes é tão antigo quanto sua etimologia (um amigo me dizia que provar a inexistência de deus é o mesmo que provar sua existência). Aceitemos, por exemplo, que a linguagem automatizada é ainda linguagem, e o trabalho alienante ainda mantém ao menos um ranço do que seja a ação de trabalhar. Considerando isso, pode-se afirmar que a fofoca, o consumo, o desastre e o crime são os dispositivos centrais das relações custeadas pelo latifúndio. A fofoca é o que resta de uma vontade de narrar: como todo vestígio da presença individual tende a ser apagado, as narrativas-fofocas dissimulam a solidão e atenuam o peso da monotonia; são divulgadas principalmente nos ambientes de consumo (bares, lojas, mercados, praça, sala, cozinha, etc.) e encontram seu ápice no desastre e na notícia criminal. Por aqui o novo invade o mundo do latifúndio, mobilizando-o. Mas ele o faz já desgastado, como moldura das cenas do próximo capítulo. Também a palavra “crime” perde sua conotação moral: não se julga mais o crime, uma vez que a violência nele implicada é fundamento do cotidiano que o produz. O crime é esvaziado de seu predicado criminoso, igualando-se à rotina – compreende-se porque as pessoas aceitam e até esperam a impunidade. O desastre, por sua vez, está um grau abaixo do crime no que concerne à duração narrativa, apenas por ser mais comum. Em geral, os causos de desastre duram menos na boca do povo do que os criminais, mas a importância de ambos para a reprodução da fofoca é a mesma. O desastre e o crime ocorrem na rapidez com que são disseminados, na velocidade do consumo, e são estereótipos do que resta da noção e do desejo de acontecer. Funciona mais ou menos assim: a brasa da fofoca já quente aguarda o próximo sopro, e, de tanto ser acionada, torna-se a tocaia do desastre e do crime, à espreita, os provocando. O acontecer está na fofoca, não no que a motiva. Assim, de pessoa em pessoa, uma narrativa vai se engendrando, de forma a modular as trocas, o imaginário, os hábitos, o esporte do tédio cotidiano. Não se trata de narrativa no sentido clássico, mas de uma narrativa para consumo, à maneira de uma amnésia mal curada. O eixo desastre-crime-consumo-fofoca-desatre-crime-consumo-fofoca... gera sua própria mimese, bloqueando a possibilidade de outra memória que não a de si mesmo.

Existem outras modalidades de fofoca, cada qual com seu prazo de validade. Dizem respeito a assuntos familiares, a pequenos escândalos, preconceitos, rixas pessoais, julgamentos, intrigas de todo tipo, etc. Estas são mais sutis e tão relevantes quanto aquelas acima descritas; destas, porém, não saberia dizer muito, somente que cumprem o papel de qualquer fofoca: sufocar a perda de si pelo retrato do outro. Daí talvez porque, ao recebermos sub-repticiamente o relato da intriga, nos é recomendado não contá-lo a ninguém, pois contar neste caso equivaleria a confessar a própria vergonha. À recomendação de guardar segredo respondemos prontamente: minha boca é um túmulo. No entanto, pagamos o preço de abrir e fechar essa cova desprovida de seu corpo sacramentado. É quando toda boca cala no mesmo jazigo, e todos os vivos assemelham-se à mesma mortalha.

Quadrilha

Palocci amava Dirceu que amava Genuíno que amava Mercadante que amava Delúbio que amava Luis Inácio que não amava ninguém.
Palocci voltou pra Brasília, Dirceu para o escritório de advocacia, Genuíno converteu-se às forças do mal, Mercadante mudou de idéia, Delúbio foi fazer o rali dos sertões em seu jipe novo e Luis Inácio se casou com José du Maragnon que não tinha nada a ver com a história.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Topia

Se algum dia me convencerem da impossibilidade de uma relação franca entre as pessoas, eu paro. Talvez seja a expectativa de tal possibilidade que motivou gente como Marx, Simmel, Benjamin, Hannah Arendt, Adorno, (só para ficar nos alemães) a escreverem. Quero acreditar que, embora nem chegue a seus pés, vale muito tentar dar-lhes a mão, afinal é o que me resta. É preciso perguntar às pessoas o que elas sonham, é preciso que o sonho as covença do limite entre o rídiculo e a ética. A educação pelo sonho. Ou alguém ainda acredita no pragmatismo do ano-novo, nos vernissages do consumismo?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

petezinho

"Adeus PT", "PT nunca mais" ou "PT: o partido que não terminou"?

domingo, 16 de agosto de 2009

cemitério dos vivos

1. A redução das relações sociais a um processo de controle e reprodução biológicos é um dos sintomas e uma das condições da economia latifundiária. Renega-se o que é estranho ao universo canavieiro porque este emerge da pulverização do diverso. À restrição do trabalho a uma atividade monocórdia corresponde o estreitamento das possibilidades criativas e do espaço político. O trabalho é sucateado, também a linguagem. O racionamento dos códigos sociais em função de um cálculo de suposta naturalidade contribui à depauperada cristalização do pensamento e da expressão. Acredita-se em tal ordenamento como se ele também não estivesse sujeito às intempéries da ação, da intenção e do desejo humanos. Assim, a linguagem não seria mais um campo a ser conquistado (reinventado), mas um mecanismo autômato que passaria de pai para filho – a violência de nascer ou morrer prolongada. A linguagem deixaria de vigorar como experiência, assim como o trabalho deixaria de operar enquanto aprendizado. Haveria, então, meios de se referir a trabalho e a linguagem? Os fantasmas de uma sociedade latifundiária começam no defunto e renovam-se no recém-nascido.

sábado, 15 de agosto de 2009

Mundaú

Quatro verões sustentam o brilho da tarde.

Sob o céu o lago inventa

Outro céu ainda mais largo.

Os resíduos da presença humana

Convertem-se em novo artefato:

Arame, carvão, caminhos abandonados,

A placa de metal na beira da estrada,

Estão entre as vítimas do azul e do lilás.


O sol recorta coqueiros de lâminas espalmadas

(Para que se possa sonhá-los concretamente).

Há também a profecia do mar e do mangue

Tramada em eterna e silenciosa vigília.

Todas as pátrias começam e terminam aqui

Onde o areal se reveza com a densa vegetação.

A terra não revela seu rosto aos olhos dos homens

Mas é preciso acreditar nessa ingênua paisagem.

poema a queima roupa

Da vida espero pouco

Mas vivo feito louco

Pela cidade


Nada quero agora,

Mas quero a toda hora

Viver o mundo todo,

Meu sonho por inteiro


Enquanto durar essa vontade

Louca de beijar a morte

Estarei a respirar bem forte

Pois te digo companheiro:


A fome futura

O amor antigo

A velha felicidade


Não morrem comigo.

Usineiros

Usineiros


Sua consciência imita os ponteiros do relógio

O mecanismo mais próximo da autonegação

Perdem a alma tão logo aprendem o negócio

Pouco meticuloso de queimar à exaustão

Os frutos verdes da terra, o fogo fértil do chão


Mas não lhes cabe o deserto das horas

Nem lhes pertence sua condição cadavérica

A praga esteriliza o solo, a fonte petrifica,

Seca rios fartos e o pomar da infância apodrece

Nada legará a promessa do açúcar a quem ignora:

Somente o trabalho da natureza permanece.


Talvez o que chamamos degradação

Não passa de um jogo

Entre homens satisfeitos com a morte.