2. Deixemos de lado a questão: se certas palavras ainda são válidas. Discutir a caducidade dos significantes é tão antigo quanto sua etimologia (um amigo me dizia que provar a inexistência de deus é o mesmo que provar sua existência). Aceitemos, por exemplo, que a linguagem automatizada é ainda linguagem, e o trabalho alienante ainda mantém ao menos um ranço do que seja a ação de trabalhar. Considerando isso, pode-se afirmar que a fofoca, o consumo, o desastre e o crime são os dispositivos centrais das relações custeadas pelo latifúndio. A fofoca é o que resta de uma vontade de narrar: como todo vestígio da presença individual tende a ser apagado, as narrativas-fofocas dissimulam a solidão e atenuam o peso da monotonia; são divulgadas principalmente nos ambientes de consumo (bares, lojas, mercados, praça, sala, cozinha, etc.) e encontram seu ápice no desastre e na notícia criminal. Por aqui o novo invade o mundo do latifúndio, mobilizando-o. Mas ele o faz já desgastado, como moldura das cenas do próximo capítulo. Também a palavra “crime” perde sua conotação moral: não se julga mais o crime, uma vez que a violência nele implicada é fundamento do cotidiano que o produz. O crime é esvaziado de seu predicado criminoso, igualando-se à rotina – compreende-se porque as pessoas aceitam e até esperam a impunidade. O desastre, por sua vez, está um grau abaixo do crime no que concerne à duração narrativa, apenas por ser mais comum. Em geral, os causos de desastre duram menos na boca do povo do que os criminais, mas a importância de ambos para a reprodução da fofoca é a mesma. O desastre e o crime ocorrem na rapidez com que são disseminados, na velocidade do consumo, e são estereótipos do que resta da noção e do desejo de acontecer. Funciona mais ou menos assim: a brasa da fofoca já quente aguarda o próximo sopro, e, de tanto ser acionada, torna-se a tocaia do desastre e do crime, à espreita, os provocando. O acontecer está na fofoca, não no que a motiva. Assim, de pessoa em pessoa, uma narrativa vai se engendrando, de forma a modular as trocas, o imaginário, os hábitos, o esporte do tédio cotidiano. Não se trata de narrativa no sentido clássico, mas de uma narrativa para consumo, à maneira de uma amnésia mal curada. O eixo desastre-crime-consumo-fofoca-desatre-crime-consumo-fofoca... gera sua própria mimese, bloqueando a possibilidade de outra memória que não a de si mesmo.
Existem outras modalidades de fofoca, cada qual com seu prazo de validade. Dizem respeito a assuntos familiares, a pequenos escândalos, preconceitos, rixas pessoais, julgamentos, intrigas de todo tipo, etc. Estas são mais sutis e tão relevantes quanto aquelas acima descritas; destas, porém, não saberia dizer muito, somente que cumprem o papel de qualquer fofoca: sufocar a perda de si pelo retrato do outro. Daí talvez porque, ao recebermos sub-repticiamente o relato da intriga, nos é recomendado não contá-lo a ninguém, pois contar neste caso equivaleria a confessar a própria vergonha. À recomendação de guardar segredo respondemos prontamente: minha boca é um túmulo. No entanto, pagamos o preço de abrir e fechar essa cova desprovida de seu corpo sacramentado. É quando toda boca cala no mesmo jazigo, e todos os vivos assemelham-se à mesma mortalha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário