quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Milagre
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Catanduva pourquoi pas
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Insophismavel Ephemeride
domingo, 13 de setembro de 2009
Sinal fechado
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Serviço de Utilidade Pública
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
10 anos de Calangos
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Break dos patrocinadores
Editora Chapéu de Papa informa
terça-feira, 1 de setembro de 2009
O tal do casco
cemitério dos vivos 4
Da torcida do Corinthians (sobre um rapaz latino americano sem dinheiro no banco)
terça-feira, 25 de agosto de 2009
cemitério dos vivos 3
A amarração lógica do sistema, a sua, digamos, sistematicidade, impede que o vejamos senão como simulacro daquilo que deseja significar. Qualquer enunciação sobre “o sistema” logo é engolida pela coerência intrínseca da idéia, da qual é a presa embora acredite ser a crítica. Teorizar o sistema é vão: antes, ao explicarmos o sistema, estamos sistematizando a teoria. Nesse sentido, o capitalismo não gerou o individualismo, por exemplo, mas nele se realizou, e ainda se realiza, e nele também se insinua como potência. Por outro lado, o que denominamos individualismo adquire clara expressão, isto é, contemporaneidade, em relação à sua indumentária capitalista. Por isso é legítimo fazer a pré-história das formas capitalistas, dos modos como o passado assalta o presente, e vice-versa. Não se trata de resolver quem nasceu primeiro, o tédio ou a galinha, mas de dialetizar a dialética, flagrar o colapso do sistema para fazer emergir seus resíduos, seus acontecimentos, seu outro. Imaginemos uma experiência amorosa desprovida de contato e conseqüência: compreender o mundo através do sistema é a mesma coisa que fazer sexo virtual. Minha sugestão, e talvez meu equi-voco, consiste em propor uma falência lingüística operada no seio da cidade latifundiária; não a bancarrota cultural, bem entendido, mas o esgotamento da palavra que comunica justamente por estar seca. E compreender aqui se restringe ao efeito de superfície, jamais ao complexo de profundidade sociológica que tanto afeta os universitários. Minha hermenêutica libertou-se do método, mas aferra-se à verdade. Prefiro me ater aos padrões de sentimento, às imagens do cotidiano, e, o que dá no mesmo, confeccionar o barro da memória. Dito isso, o problema aqui não é que a palavra tenha assumido de vez sua “função” dentro do sistema, mas que as pessoas possam nisto acreditar, e viver conforme. Teríamos, assim, uma cultura da ineficácia cultural, onde passaríamos os dias anestesiados, quando anestesiar é o único jeito de passar os dias? O fardo maior de tal mundo é que ele funciona à revelia do sistema que julgamos determiná-lo. Porém, é próprio da palavra nutrir-se de paradoxos. Um belo dia a semente seca soterrada durante anos é alcançada pela chuva e renasce exuberante. Os pomares hão de renascer, porque a terra merece nossa feliz agricultura, e é preciso que voltemos a merecer a terra também.cemitério dos vivos 2
2. Deixemos de lado a questão: se certas palavras ainda são válidas. Discutir a caducidade dos significantes é tão antigo quanto sua etimologia (um amigo me dizia que provar a inexistência de deus é o mesmo que provar sua existência). Aceitemos, por exemplo, que a linguagem automatizada é ainda linguagem, e o trabalho alienante ainda mantém ao menos um ranço do que seja a ação de trabalhar. Considerando isso, pode-se afirmar que a fofoca, o consumo, o desastre e o crime são os dispositivos centrais das relações custeadas pelo latifúndio. A fofoca é o que resta de uma vontade de narrar: como todo vestígio da presença individual tende a ser apagado, as narrativas-fofocas dissimulam a solidão e atenuam o peso da monotonia; são divulgadas principalmente nos ambientes de consumo (bares, lojas, mercados, praça, sala, cozinha, etc.) e encontram seu ápice no desastre e na notícia criminal. Por aqui o novo invade o mundo do latifúndio, mobilizando-o. Mas ele o faz já desgastado, como moldura das cenas do próximo capítulo. Também a palavra “crime” perde sua conotação moral: não se julga mais o crime, uma vez que a violência nele implicada é fundamento do cotidiano que o produz. O crime é esvaziado de seu predicado criminoso, igualando-se à rotina – compreende-se porque as pessoas aceitam e até esperam a impunidade. O desastre, por sua vez, está um grau abaixo do crime no que concerne à duração narrativa, apenas por ser mais comum. Em geral, os causos de desastre duram menos na boca do povo do que os criminais, mas a importância de ambos para a reprodução da fofoca é a mesma. O desastre e o crime ocorrem na rapidez com que são disseminados, na velocidade do consumo, e são estereótipos do que resta da noção e do desejo de acontecer. Funciona mais ou menos assim: a brasa da fofoca já quente aguarda o próximo sopro, e, de tanto ser acionada, torna-se a tocaia do desastre e do crime, à espreita, os provocando. O acontecer está na fofoca, não no que a motiva. Assim, de pessoa em pessoa, uma narrativa vai se engendrando, de forma a modular as trocas, o imaginário, os hábitos, o esporte do tédio cotidiano. Não se trata de narrativa no sentido clássico, mas de uma narrativa para consumo, à maneira de uma amnésia mal curada. O eixo desastre-crime-consumo-fofoca-desatre-crime-consumo-fofoca... gera sua própria mimese, bloqueando a possibilidade de outra memória que não a de si mesmo.
Existem outras modalidades de fofoca, cada qual com seu prazo de validade. Dizem respeito a assuntos familiares, a pequenos escândalos, preconceitos, rixas pessoais, julgamentos, intrigas de todo tipo, etc. Estas são mais sutis e tão relevantes quanto aquelas acima descritas; destas, porém, não saberia dizer muito, somente que cumprem o papel de qualquer fofoca: sufocar a perda de si pelo retrato do outro. Daí talvez porque, ao recebermos sub-repticiamente o relato da intriga, nos é recomendado não contá-lo a ninguém, pois contar neste caso equivaleria a confessar a própria vergonha. À recomendação de guardar segredo respondemos prontamente: minha boca é um túmulo. No entanto, pagamos o preço de abrir e fechar essa cova desprovida de seu corpo sacramentado. É quando toda boca cala no mesmo jazigo, e todos os vivos assemelham-se à mesma mortalha.
Quadrilha
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Topia
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
domingo, 16 de agosto de 2009
cemitério dos vivos
1. A redução das relações sociais a um processo de controle e reprodução biológicos é um dos sintomas e uma das condições da economia latifundiária. Renega-se o que é estranho ao universo canavieiro porque este emerge da pulverização do diverso. À restrição do trabalho a uma atividade monocórdia corresponde o estreitamento das possibilidades criativas e do espaço político. O trabalho é sucateado, também a linguagem. O racionamento dos códigos sociais em função de um cálculo de suposta naturalidade contribui à depauperada cristalização do pensamento e da expressão. Acredita-se em tal ordenamento como se ele também não estivesse sujeito às intempéries da ação, da intenção e do desejo humanos. Assim, a linguagem não seria mais um campo a ser conquistado (reinventado), mas um mecanismo autômato que passaria de pai para filho – a violência de nascer ou morrer prolongada. A linguagem deixaria de vigorar como experiência, assim como o trabalho deixaria de operar enquanto aprendizado. Haveria, então, meios de se referir a trabalho e a linguagem? Os fantasmas de uma sociedade latifundiária começam no defunto e renovam-se no recém-nascido.
sábado, 15 de agosto de 2009
Mundaú
Quatro verões sustentam o brilho da tarde.
Sob o céu o lago inventa
Outro céu ainda mais largo.
Os resíduos da presença humana
Convertem-se em novo artefato:
Arame, carvão, caminhos abandonados,
A placa de metal na beira da estrada,
Estão entre as vítimas do azul e do lilás.
O sol recorta coqueiros de lâminas espalmadas
(Para que se possa sonhá-los concretamente).
Há também a profecia do mar e do mangue
Tramada em eterna e silenciosa vigília.
Todas as pátrias começam e terminam aqui
Onde o areal se reveza com a densa vegetação.
A terra não revela seu rosto aos olhos dos homens
Mas é preciso acreditar nessa ingênua paisagem.
poema a queima roupa
Da vida espero pouco
Mas vivo feito louco
Pela cidade
Nada quero agora,
Mas quero a toda hora
Viver o mundo todo,
Meu sonho por inteiro
Enquanto durar essa vontade
Louca de beijar a morte
Estarei a respirar bem forte
Pois te digo companheiro:
A fome futura
O amor antigo
A velha felicidade
Não morrem comigo.
Usineiros
Usineiros
O mecanismo mais próximo da autonegação
Perdem a alma tão logo aprendem o negócio
Pouco meticuloso de queimar à exaustão
Os frutos verdes da terra, o fogo fértil do chão
Mas não lhes cabe o deserto das horas
Nem lhes pertence sua condição cadavérica
A praga esteriliza o solo, a fonte petrifica,
Seca rios fartos e o pomar da infância apodrece
Nada legará a promessa do açúcar a quem ignora:
Somente o trabalho da natureza permanece.
Talvez o que chamamos degradação
Não passa de um jogo
Entre homens satisfeitos com a morte.