quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Milagre

Adeus 2009, vai com deus! Arruda, espírito de porco, pede pra cagar e se manda jacaré. Vamos com tudo para o próximo ano. 2010, a missão impossível: botar um sorriso na cara da Dilma. Ninguém sabe como. Mas a publicidade é filha dileta de Jesus. MILAGRE! Eu não vejo a hora de gritar MILAGRE! Tem um amigo que diz que Jesus foi o primeiro publicitário, e macho, diga-se de passagem, porque para utilizar-se daquela fatídica estratégia do prego e da coroa o cabra tinha que ser muito macho. Depois do milagre econômico, agora é a vez do milagre do "nunca na história desse país". Amanhã será o milagre do sorriso. Se segura companheiro. É isso, feliz bebedeira a todos, muito dinheiro no bolso e esbórnia. Porque nunca na história da humanidade houve um país que precisasse de tanto MILAGRE. Milagre, milagre, milagre, somos todos galvões buenos e não desistimos nunca. (toda vez que o milagre não acontecer, eu proponho uma expressão de lamento, é assim: "ai Dunga"). Tchau.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Catanduva pourquoi pas

Olimpíadas 2016 no Brasil.

Eu só não entendo por que não escolheram Catanduva. Que chato.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Insophismavel Ephemeride

Da entrevista que o polímata Terezo Bornay concedeu ao hebdomadário Insophismavel Ephemeride, essa madrugada em seu Big Chalet em Pedrinhas Paulista. Demais, histórica, galvãobuenante.
Entrevistador: - Bem amigos, estamos aqui em Pedrinhas Paulista, num aconchegante Chalet, ao lado de uma verdadeira lenda viva, ele dispensa apresentações, basta dizer seu nome, estamos falando dele, o inenarrável Terezo Bornay. Bem Terezo, eu gostaria de começar (interrupção)..."
Terezo: - Pára de falar "Bem", caralho, isso me irrita. Sem falar "bem", ok? (risos) (risos) (muitos risos)
- Tudo bem, opts, tudo ok Terezo. Bom, como eu ia dizendo, gostaria de começar a entrevista perguntando sobre seu polêmico projeto científico "Mamute congelado para a posteridade", sei que é um assunto delicado...
- Delicado o cacete meu chapa, é assunto vigoroso, coisa de macho. Sabe cara, o projeto Mamute está à frente do seu tempo, é o seguinte, eu defendo que nós temos um patrimônio a ser zelado, temos que defender o que é nosso, o que nos define, então eu pensei em congelar os caras, entende, para que eles sejam descongelados daqui a 100 ou 200 anos, sabe bicho, para essa coisa não acabar nunca, essa coisa que só a ética faz, que é bacana.
- Mas, o senhor poderia especificar melhor pro nosso leitor quem seria congelado.
- Sabe bicho, quem se ligou nos assuntos científicos dos últimos anos conhece o projeto Mamute, me enche o saco ter que falar disso mais uma vez, mas como sua cara me inspira pena, eu falo sim. O projeto Mamute visa congelar grandes personalidades políticas, pessoas destras no trato da coisa pública, gente hábil saca bicho, tipo José Sarney, Paulo Maluf, Renan Calheiros, Fernandinhho, aquele do Castelo, o Heráclito, entende malandro, esses personas que enfim constroem a pátria, cara, só de pensar que esse pessoal vai pra caixa prego eu desanimo. Eles tem que ser congelados para o futuro, não podemos privar as novas gerações da convivência desses gigantes, entende muleque? Então o projeto Mamute é isso, baseado numa premissa ética-humana, preservar nossa essência por meio do congelamento de gente real, de carne osso e máteria espiritual também. Ah, só de pensar nisso ! Que projeto! Congelar, congelar para que nosso bom humor não pereça.
-Claro, todos nós do Insophismavel Ephemeride, e o leitor também, acreditamos nesta idéia. Mas Terezo, como ficou a questão do congelamento do ACM?
- Ah sim, meu brother Toninho, tentamos um primeiro congelamente, mas o processo barrou na burocracia, porque tenho certeza que se dependesse do congresso o projeto passaria, sabe cabritinho, tem sempre gente jogando merda no ventilador, aqueles do contra, gente cega que atrapalha, mas nós vamos continuar lutando, e quando em breve o projeto for implementado, temos a proposta de exumar o ACM para congelar o que restou dessa nobre figura.
(neste instante, Terezo começa a direcionar piscadelas para o entrevistador, que dissimula)
- Terezo, mudando um pouco de assunto, vamos falar agora de seus dotes literários. Como todos sabem, você é o grande recordista de medalhas das Olimpíadas Literárias do Estado de Tocantis (OLET's) com o soma incrível de 16 medalhas. Se me permite falar suas conquistas...
- Fica a vontade cabrito. (um risinho insinuante e silencioso toma-lhe o canto direito da boca)
- São 11 medalhas de ouro, nas seguintes provas: parágrafo tripo, parágrafo em extensão, parágrafo com varas, e parágrafo com barreiras; alenxandrinos com barreitas, alenxandrinos livres, revezamento de alexandrinos 4x100; arremesso de quartetos; maratona de rimas pobres; oração subordina subjuntiva em extensão e oração subordinada subjuntiva rasa.
4 medalhas de prata: soneto em dupla com rimas ricas, soneto individual livre no solo; períodos olímpicos com a palavra oximoro; e cujos ornamentais.
1 medalha de bronze: arcaísmos peso médio ligeiro.

(a entrevista continua na próxima semana porque eu tenho que pegar o ônibus)

domingo, 13 de setembro de 2009

Sinal fechado

Alguém poderia me explicar o destempero do Dunga? Meu deus, tô pasmo com a grosseria desse rapaz. Um cara para ter o cargo que esse cidadão tem, deve, no mínimo, ser diplomático. Caramba, se for pra ganhar chingando todo mundo, prefiro o limbo. Parei. Mas a seleção não está vencendo? Pra que tanta estupidez? Desisto do futebol.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Serviço de Utilidade Pública

Viu, o distinto cidadão Arthur Epaminondas da Conceição, mais conhecido como Maquininha, famoso Prevaricador, Fisiocrata, Beócio, Pelego, Testa-de-Ferro e intérprete de Chopin nas horas vagas, confirma: manterá a greve de fome por período indeterminado. Ainda não se sabe a causa dessa assustadora iniciativa, mas tudo leva a crer na hipótese de uma desilusão de ordem político-amorosa. O Sr. Maquininha promete que irá contar em detalhes o que o levou a deflagrar o motim na sua próxima auto-biografia, que provavelmente será publicada pela Editora Chapéu de Papa, "O caixa-dois da memória, memória de um caixa-dois", se até lá ele não vier a falecer. Vamos aguardar o desfecho dessa história tensa. Esperemos que o Sr. Maquininha volte a saborear os saborosos marmelos da sua empregada Criméria, e que o Sr. Maquininha volte a iluminar as nossas vidas com seu espírito de porco. Por enquanto é isso. Abração.

Esse post é um oferecimento da Casa de Carnes Boi Cotado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

10 anos de Calangos

Ai caramba! Há dez anos a tinta amarela já estava manchando a roupa branca do Mussarela. Fizemos uma festa para inaugurar a irmandade, e o Salomão, que era dono do imóvel e turco, pintou a casa com giz de cera. Pintou todo mundo. E a Benzica nos recebeu em seu humilde lar com muito carinho. Ela assombrava mais o Minduim, que era o mais medroso apesar do tamanho. No fim acabaram ficando numa boa, Minduim e Benzica, ele só deveria dormir com a luz acesa. Eis o primeiro dia da Calangos. Só não podia chover senão molhava o pessoal. E depois veio o primeiro almoço em família. O Mussa se incumbiu de fazer as honras da casa e foi logo chamando a responsabilidade da alimentação coletiva para si. Resultado: logo na primeira refeição, o arroz queimou. Depois, para se redimir, ele fez outro almoço, mas dessa vez foi pouca a comida, ele ficou com pena de cozinhar o feijão. Dá dó mesmo quando o feijão é graúdo. Ai, vocês podem se perguntar, mas como uma bagaça dessa deu certo? Mas claro que deu, pois nós tínhamos um belo ponta-de-lança, o Pablo, que com sua bagagem e experiência acumulada nos tempos de Ouro Preto nos proporcionou as reuniões necessárias à boa manutenção da República. Êta Rapaz que gostava duma reunião! E ele tinha várias idéias acachapantes, como a proposta da Bandeira, que ainda está tramitando nos bastidores da nova geração. Vida londa à campanha em prol da Bandeiraaaaa! Pois é, foi o mesmo Pablo que incentivou também a nossa conquista do Centro Histórico de Mariana. Então, deixamos a Benzica em paz e nos mudamos para a vizinhança, lá no pátio da escola, uma beleza. Dai, entrou na jogada o Fabriço, que foi morar na divisória. Êta Rapaz que gostava duma divisória! O Fabriço veio para nos salvar. Com seu já famoso e conhecido estilo sisudo, ele imprimiu classe para a Calangos, seriedade, serenidade, elegância, rigor, além de divulgar a nobre cueca de zebra. Pronto, estava formado o primeiro esquadrão Calangos, o rolo compressor da UFOPA, um 4-3-3 que tirava o Zé Arnaldo do sério: Mussa, Minduim, Pablo, Fabriço e este que vos fala. Bom, as histórias são infindáveis, como aquela em que o Minduim se dependurou sobre o orelhão. Até hoje a pergunta não cala: Minduim, o que você estava fazendo pendurado no orelhão? E também teve a salada grega, a macrobiótica do Pablo, a churrasqueira do Rodolfão, uma espécie de turbina portátil, etc. A minha saudade é tão grande que se compara à saudade que o sofá roxo tem do corpo do Mussarela, lembra como se davam perfeitamente? É isso, o narrador não poderia estar mais feliz nesse momento. Como falar de si próprio não pega bem, fico por aqui. Só confirmo que ainda tenho uma certa dificuldade em memorizar o meu telefone, mas um dia chego lá. Vai té quando dé. Se não for isso é isso mesmo. Calangos sempre Calangos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Break dos patrocinadores

Esse Brog não seria possível sem o apoio de:
Motel Nossa Senhora de Fátima, Cursinho Pré-Vestibular Adolf Hitler, Escola de Idiomas Quinto Picossi, Alfaiataria Pedra Ligeira, Auto Escola Rubens Barrichelo, Editora Chapéu de Papa, Funerária Amigo da Onça e Mel Mulher Soluções Capilares. A todos o nosso agradecimento.

Car l'amour demande un peu d'avenir, et il n'y avait plus pour nous que des instants. (A. Camus)

A John Ruskin (in memóriam).

Editora Chapéu de Papa informa

Não percam o último lançamento da Editora Chapéu de Papa: a tese de Livre-Docência do místico/alquimista Tonho do Nello, mais conhecido como Fuça Suja, sobre a vasta obra literária do mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras (AALL), cujo título é "Figurações do vazio: entre o nada e a página em branco, estratégias ficcionais em Fernado Collor de Melo".
Na sua livraria mais próxima.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O tal do casco

Da vantagem dos modernos sobre os antigos: que aqueles puderam ler e julgar estes. Da vantagem dos antigos sobre os modernos: que os primeiros foram poupados de tanta bobagem. (ver Oswald de Andrade em relação a Caetano Veloso, por exemplo).

cemitério dos vivos 4

4. Os canaviais se expandem a perder de vista. Não se sabe onde começam nem onde terminam, sequer se começam ou terminam. O espaço latifundiário é neutro. Ao invés de areia o que se apresenta aos olhos curiosos é um deserto de cana-de-açúcar. Cravado em meio ao canavial, a Usina ergue-se soberana. Contra o horizonte destacam-se três figuras: chaminé, fumaça e a montanha de bagaço-de-cana que serve de combustível aos fornos da Usina. Desta saem os caminhos de terra batida que atravessam o canavial e desembocam nas rodovias intermunicipais. Por tais caminhos a Usina monopoliza o território e a mão-de-obra que advém das cidades. A práxis espacial aqui é muito simples: trata-se apenas de nivelar o terreno, de sorte a suprimir-lhe o menor acidente, e sobre a terra plana fazer brotar o denso deserto verde. A partir da Usina, riscam-se as vias em linha reta, as quais perfuram a massa compacta de cana-de-açúcar. Como sua matemática é primária, o latifúndio resume-se a um conjunto exíguo de figuras; seu registro espacial exprime a carência de imagens duradouras já que referências visuais não resistem à voracidade da Usina. O espaço latifundiário é absoluto, ignora o seu antes e o seu depois, só assim pode alimentar a ininterrupta atividade da própria fome. O tempo também padece dessa dinâmica compressora. Pois, para adequar-se a tal espacialidade, o tempo precisa compartilhar suas configurações. Assim, as distinções tradicionais entre dia e noite perdem vigência. No processo de produção latifundiário, o tempo individual aplainou-se em turnos alternados de 12 horas: enquanto uns dormem, outros continuam o trabalho, sempre esperando sua vez de repousar, de modo que o tempo coletivo não cessa jamais seu círculo vertiginoso e insuficiente. O relógio biológico dos trabalhares é respeitado em seu limiar, isto é, na medida em que o trabalhador possa render o máximo sem desfalecer. O latifúndio não apenas elidiu do espaço sua espessura imagética, tornando-o despersonalizado, mas também encampou o tempo múltiplo do camponês, transformando-o em cronologia estéril, indistinta, repetitiva. A noite seqüestra o dia e o dia prolonga a noite; dias, semanas, meses e anos não se pautam mais por indicações temporais circunstanciadas, mas se nivelam às metas fixas e vazias da receita empresarial. Da mesma forma como essa rotina destemporaliza o espaço, ela desespacializa o tempo. Um amigo que trabalhou como motorista de treminhão me contava que alguns de seus colegas de trabalho passaram anos sem sair de casa nos momentos de folga porque já não lembravam mais as amizades e os vínculos sociais de outrora, tamanha sua aderência ao espaço-tempo massacrante da Usina. Esquecer, aliás, é um modo eficaz de adaptação. Neste caso, os trabalhadores se esquecem facilmente do que fazer com o ócio e com o fato de estarem vivos. Algumas vezes pude percorrer os caminhos dos canaviais. Neles se move até esquecer-se por onde se move; a falta de perspectiva enfastia, a sensação de ir a lugar nenhum exaure. O que se pode conhecer de um espaço-tempo re-produzido às custas da própria diluição? Pequenas cidades ainda rompem esse cenário homogêneo com suas anedotas, mas a presença do padrão latifundiário está cada dia mais entranhado na vida das pessoas, que estão cada vez mais habituadas ao esquecimento voluntário, inclusive ao esquecimento do próprio cansaço.

Da torcida do Corinthians (sobre um rapaz latino americano sem dinheiro no banco)

ôoooo, o Belchior voltôooooo, o Belchior voltôoooooooo, o Belchior voltôooooo ooooo, ôooooo, o Belchior voltôooooo, o Belchior voltôoooooo, o Belchior voltôooooooo ooooo, etc, etc, etc.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

cemitério dos vivos 3

3.Negrito A amarração lógica do sistema, a sua, digamos, sistematicidade, impede que o vejamos senão como simulacro daquilo que deseja significar. Qualquer enunciação sobre “o sistema” logo é engolida pela coerência intrínseca da idéia, da qual é a presa embora acredite ser a crítica. Teorizar o sistema é vão: antes, ao explicarmos o sistema, estamos sistematizando a teoria. Nesse sentido, o capitalismo não gerou o individualismo, por exemplo, mas nele se realizou, e ainda se realiza, e nele também se insinua como potência. Por outro lado, o que denominamos individualismo adquire clara expressão, isto é, contemporaneidade, em relação à sua indumentária capitalista. Por isso é legítimo fazer a pré-história das formas capitalistas, dos modos como o passado assalta o presente, e vice-versa. Não se trata de resolver quem nasceu primeiro, o tédio ou a galinha, mas de dialetizar a dialética, flagrar o colapso do sistema para fazer emergir seus resíduos, seus acontecimentos, seu outro. Imaginemos uma experiência amorosa desprovida de contato e conseqüência: compreender o mundo através do sistema é a mesma coisa que fazer sexo virtual. Minha sugestão, e talvez meu equi-voco, consiste em propor uma falência lingüística operada no seio da cidade latifundiária; não a bancarrota cultural, bem entendido, mas o esgotamento da palavra que comunica justamente por estar seca. E compreender aqui se restringe ao efeito de superfície, jamais ao complexo de profundidade sociológica que tanto afeta os universitários. Minha hermenêutica libertou-se do método, mas aferra-se à verdade. Prefiro me ater aos padrões de sentimento, às imagens do cotidiano, e, o que dá no mesmo, confeccionar o barro da memória. Dito isso, o problema aqui não é que a palavra tenha assumido de vez sua “função” dentro do sistema, mas que as pessoas possam nisto acreditar, e viver conforme. Teríamos, assim, uma cultura da ineficácia cultural, onde passaríamos os dias anestesiados, quando anestesiar é o único jeito de passar os dias? O fardo maior de tal mundo é que ele funciona à revelia do sistema que julgamos determiná-lo. Porém, é próprio da palavra nutrir-se de paradoxos. Um belo dia a semente seca soterrada durante anos é alcançada pela chuva e renasce exuberante. Os pomares hão de renascer, porque a terra merece nossa feliz agricultura, e é preciso que voltemos a merecer a terra também.

cemitério dos vivos 2

2. Deixemos de lado a questão: se certas palavras ainda são válidas. Discutir a caducidade dos significantes é tão antigo quanto sua etimologia (um amigo me dizia que provar a inexistência de deus é o mesmo que provar sua existência). Aceitemos, por exemplo, que a linguagem automatizada é ainda linguagem, e o trabalho alienante ainda mantém ao menos um ranço do que seja a ação de trabalhar. Considerando isso, pode-se afirmar que a fofoca, o consumo, o desastre e o crime são os dispositivos centrais das relações custeadas pelo latifúndio. A fofoca é o que resta de uma vontade de narrar: como todo vestígio da presença individual tende a ser apagado, as narrativas-fofocas dissimulam a solidão e atenuam o peso da monotonia; são divulgadas principalmente nos ambientes de consumo (bares, lojas, mercados, praça, sala, cozinha, etc.) e encontram seu ápice no desastre e na notícia criminal. Por aqui o novo invade o mundo do latifúndio, mobilizando-o. Mas ele o faz já desgastado, como moldura das cenas do próximo capítulo. Também a palavra “crime” perde sua conotação moral: não se julga mais o crime, uma vez que a violência nele implicada é fundamento do cotidiano que o produz. O crime é esvaziado de seu predicado criminoso, igualando-se à rotina – compreende-se porque as pessoas aceitam e até esperam a impunidade. O desastre, por sua vez, está um grau abaixo do crime no que concerne à duração narrativa, apenas por ser mais comum. Em geral, os causos de desastre duram menos na boca do povo do que os criminais, mas a importância de ambos para a reprodução da fofoca é a mesma. O desastre e o crime ocorrem na rapidez com que são disseminados, na velocidade do consumo, e são estereótipos do que resta da noção e do desejo de acontecer. Funciona mais ou menos assim: a brasa da fofoca já quente aguarda o próximo sopro, e, de tanto ser acionada, torna-se a tocaia do desastre e do crime, à espreita, os provocando. O acontecer está na fofoca, não no que a motiva. Assim, de pessoa em pessoa, uma narrativa vai se engendrando, de forma a modular as trocas, o imaginário, os hábitos, o esporte do tédio cotidiano. Não se trata de narrativa no sentido clássico, mas de uma narrativa para consumo, à maneira de uma amnésia mal curada. O eixo desastre-crime-consumo-fofoca-desatre-crime-consumo-fofoca... gera sua própria mimese, bloqueando a possibilidade de outra memória que não a de si mesmo.

Existem outras modalidades de fofoca, cada qual com seu prazo de validade. Dizem respeito a assuntos familiares, a pequenos escândalos, preconceitos, rixas pessoais, julgamentos, intrigas de todo tipo, etc. Estas são mais sutis e tão relevantes quanto aquelas acima descritas; destas, porém, não saberia dizer muito, somente que cumprem o papel de qualquer fofoca: sufocar a perda de si pelo retrato do outro. Daí talvez porque, ao recebermos sub-repticiamente o relato da intriga, nos é recomendado não contá-lo a ninguém, pois contar neste caso equivaleria a confessar a própria vergonha. À recomendação de guardar segredo respondemos prontamente: minha boca é um túmulo. No entanto, pagamos o preço de abrir e fechar essa cova desprovida de seu corpo sacramentado. É quando toda boca cala no mesmo jazigo, e todos os vivos assemelham-se à mesma mortalha.

Quadrilha

Palocci amava Dirceu que amava Genuíno que amava Mercadante que amava Delúbio que amava Luis Inácio que não amava ninguém.
Palocci voltou pra Brasília, Dirceu para o escritório de advocacia, Genuíno converteu-se às forças do mal, Mercadante mudou de idéia, Delúbio foi fazer o rali dos sertões em seu jipe novo e Luis Inácio se casou com José du Maragnon que não tinha nada a ver com a história.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Topia

Se algum dia me convencerem da impossibilidade de uma relação franca entre as pessoas, eu paro. Talvez seja a expectativa de tal possibilidade que motivou gente como Marx, Simmel, Benjamin, Hannah Arendt, Adorno, (só para ficar nos alemães) a escreverem. Quero acreditar que, embora nem chegue a seus pés, vale muito tentar dar-lhes a mão, afinal é o que me resta. É preciso perguntar às pessoas o que elas sonham, é preciso que o sonho as covença do limite entre o rídiculo e a ética. A educação pelo sonho. Ou alguém ainda acredita no pragmatismo do ano-novo, nos vernissages do consumismo?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

petezinho

"Adeus PT", "PT nunca mais" ou "PT: o partido que não terminou"?

domingo, 16 de agosto de 2009

cemitério dos vivos

1. A redução das relações sociais a um processo de controle e reprodução biológicos é um dos sintomas e uma das condições da economia latifundiária. Renega-se o que é estranho ao universo canavieiro porque este emerge da pulverização do diverso. À restrição do trabalho a uma atividade monocórdia corresponde o estreitamento das possibilidades criativas e do espaço político. O trabalho é sucateado, também a linguagem. O racionamento dos códigos sociais em função de um cálculo de suposta naturalidade contribui à depauperada cristalização do pensamento e da expressão. Acredita-se em tal ordenamento como se ele também não estivesse sujeito às intempéries da ação, da intenção e do desejo humanos. Assim, a linguagem não seria mais um campo a ser conquistado (reinventado), mas um mecanismo autômato que passaria de pai para filho – a violência de nascer ou morrer prolongada. A linguagem deixaria de vigorar como experiência, assim como o trabalho deixaria de operar enquanto aprendizado. Haveria, então, meios de se referir a trabalho e a linguagem? Os fantasmas de uma sociedade latifundiária começam no defunto e renovam-se no recém-nascido.

sábado, 15 de agosto de 2009

Mundaú

Quatro verões sustentam o brilho da tarde.

Sob o céu o lago inventa

Outro céu ainda mais largo.

Os resíduos da presença humana

Convertem-se em novo artefato:

Arame, carvão, caminhos abandonados,

A placa de metal na beira da estrada,

Estão entre as vítimas do azul e do lilás.


O sol recorta coqueiros de lâminas espalmadas

(Para que se possa sonhá-los concretamente).

Há também a profecia do mar e do mangue

Tramada em eterna e silenciosa vigília.

Todas as pátrias começam e terminam aqui

Onde o areal se reveza com a densa vegetação.

A terra não revela seu rosto aos olhos dos homens

Mas é preciso acreditar nessa ingênua paisagem.

poema a queima roupa

Da vida espero pouco

Mas vivo feito louco

Pela cidade


Nada quero agora,

Mas quero a toda hora

Viver o mundo todo,

Meu sonho por inteiro


Enquanto durar essa vontade

Louca de beijar a morte

Estarei a respirar bem forte

Pois te digo companheiro:


A fome futura

O amor antigo

A velha felicidade


Não morrem comigo.

Usineiros

Usineiros


Sua consciência imita os ponteiros do relógio

O mecanismo mais próximo da autonegação

Perdem a alma tão logo aprendem o negócio

Pouco meticuloso de queimar à exaustão

Os frutos verdes da terra, o fogo fértil do chão


Mas não lhes cabe o deserto das horas

Nem lhes pertence sua condição cadavérica

A praga esteriliza o solo, a fonte petrifica,

Seca rios fartos e o pomar da infância apodrece

Nada legará a promessa do açúcar a quem ignora:

Somente o trabalho da natureza permanece.


Talvez o que chamamos degradação

Não passa de um jogo

Entre homens satisfeitos com a morte.